Estudos de Contraponto do Gradus ad Parnassum de J. J. Fux

 

Orlando Marcos Martins Mancini

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professor de contraponto

2018

 Fux como discípulo de Palestrina

The Study of Fugue de Alfred Mann, Dover Publications Inc., 1987, pp.75-77.

 

Tradução: Orlando Marcos Martins Mancini

Professor de contraponto

 

A versão original do Gradus ad Parnassum, escrita em latim por Johann Josef Fux, surgiu em 1725, publicada às custas imperiais.

 

A edição do livro esgotou em apenas um ano e protagonizou uma história sem paralelo na literatura da teoria musical.

 

Traduzido pelo aluno de Bach, Lorenz Christoph Mizler, “sob os auspiciosos olhares de Bach”, e parafraseado em resumos por Haydn e Beethoven, O Gradus ad Parnassum se tornou o manual clássico de composição.

 

Embora dois séculos de uso submeteram o texto original de Fux a um número interminável de mudanças, o original, em tradução moderna, serviu ainda às aulas de Richard Strauss e Paul Hindemith.

Fux publicou seu trabalho em duas partes.

A primeira parte, pars speculativa, é uma introdução onde são apresentadas as operações matemáticas tradicionalmente utilizadas para explicar a natureza dos intervalos e das escalas. Como o próprio autor comenta em seu prefácio, é “tão breve quanto possível”.

 

A segunda parte, consideravelmente maior, pars activa, contém o estudo do contraponto e o estudo da fuga.

 

Poucos capítulos curtos posteriores apresentam e discutem os sistemas dos modos da igreja e diferentes estilos do tempo de Fux concluindo o livro.

O estudo da fuga [Aula em imitação e Contraponto Duplo] de Fux é bem menos conhecido do que seu estudo de contraponto, mas é o estudo da fuga que o próprio Fux descreve como o aspecto mais importante de seu trabalho. Muitas vezes observa que o treinamento contrapontístico que precede o estudo da fuga não deveria ser considerado um fim em si mesmo. Ele subordina os exercícios simples ao contraponto florido – uma combinação livre de diversos valores rítmicos que ainda seguem as regras estritas governando o uso das dissonâncias. Este, por outro lado, serve na preparação dos estudantes para o momento “quando as restrições do Cantus Firmus são removidas, e ele (o aluno), pode-se sustentar nos próprios pés, ou melhor... pode escrever composições livres” – este é o tempo em que se adentra no estudo da fuga. Ainda neste novo estágio de liberdade, o estudante não é deixado sem guia. Na forma imitativa, sua própria invenção serve como um Cantus Firmus, e de compasso em compasso, cada nova ideia forma a base para a próxima. Este processo determina logicamente para Fux o momento do estudo da fuga no ensino da composição.

 

O método de progresso graduado de Fux – expresso no título do trabalho – é um método que incrementa degrau por degrau as possibilidades para o estudante, confrontando-o gradualmente com tipos diferentes de problemas. É decididamente direcionado pelo fato de que Fux baseia sua discussão da fuga e do contraponto nos modos da igreja.

 

A postura que Fux toma no que se refere aos modos é inteiramente prática, pois, o estudo da fuga não é precedido, mas, ao invés, seguido de uma explicação formal do sistema modal. No início o estudante é direcionado a construir progressões simples pelo uso consistente dos “tons naturais”. O uso dos acidentes é limitado a instâncias onde ajudam a formar uma cadência ou evitar um trítono. Esta restrição necessariamente coloca ênfase particular no elemento melódico através dos vários usos do semitom natural ao qual Fux se refere como Mi-Fá.

 

Assim Fux desenvolve a habilidade do estudante com respeito à invenção melódica antes de admitir um uso mais complexo e consciente de meios harmônicos. Ele solicita dos alunos que se mantenham dentro dos limites do sistema diatônico e que guardem as vantagens de um sistema combinado – permutando progressões cromáticas e diatônicas – para um tempo quando estejam completamente instruídos nos princípios técnicos da fuga.

 

O retorno ao estilo modal e seu tratamento estrito de consonâncias e dissonâncias, melodia e ritmo, é explicado por Fux como uma matéria de seu próprio profundo endividamento. Em seu prefácio ele atribui tudo que ele sabe na arte da composição a “gloriosa luz da música de Praeneste – Palestrina – cuja memória eu nunca cessarei de bem-querer com sentimento de profunda reverência”.

 

O ideal que o estilo de Palestrina representa para Fux é o ideal de música sagrada, e essa escolha nos relembra da inscrição Soli Deo Gloria, que os trabalhos do tempo de Fux portam. A questão da excelência musical era para ele a questão de uma expressão adequada do trabalho divino. Sendo Deus a mais alta perfeição, a harmonia composta para sua devoção deveria seguir as regras mais estritas que a perfeição pode clamar, até que as imperfeições humanas possam realizá-las, escreve Fux. Mas uma particularidade notável do trabalho de Fux está no fato de que a integridade artística foi emparelhada com um discernimento histórico e pedagógico que lhe apontou a escolha da polifonia do século XVI como o último modelo de musical severidade e pureza. Assim, adotando a forma clássica do diálogo para as lições do Gradus, Fux se auto-declarou (Josephus) o estudante de Palestrina (Aloysius); e quando, no final do livro, mestre e discípulo analisam partes das missas de Fux, é como se Fux quisesse submeter seus próprios trabalhos ao julgamento do Príncipe da Música Sagrada.

 

Alguns trechos das discussões entre Aloysius e Josephus, especialmente no inicio e no final, são sem dúvida reminiscências de cenas entre Fux e seus próprios alunos. De fato, a narração que um contemporâneo mais jovem, Ignaz Jacob Holzbauer, apresenta de uma visita feita a Fux, mostra a mesma conversa inicial do Gradus. Mas na essência do seu trabalho, Fux aparece como Josephus – o estudante – pois Fux verdadeiramente se deu conta que ensinar significa deixar aprender e que de forma a assumir o papel de intérprete do passado, o professor deve assumir o papel de discípulo.

 

O leitor encontrará nas entrelinhas do texto do livro, escrito em uma linguagem de diálogo singular e estranha aos ouvidos modernos, um entendimento pedagógico refrescante e um soberbo domínio do objeto do estudo. A autoridade do Gradus de Fux é expressa pelo fato de que é o livro através do qual os grandes mestres aprenderam composição, mas a sabedoria dos ensinamentos de Fux nos fala diretamente de seu trabalho, mesmo quando não estamos conscientes de sua história.

 

Alfred Mann

 

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